Se perguntássemos a Paulo, nos momentos finais de sua vida, qual o fato determinante de sua vida, sem dúvida de que responderia: o encontro de Damasco. Antes, tudo era diferente; depois, tudo será diferente. Refletindo e rezando para dar uma formação na atualização geral da Comunidade de Vida Alpha e Ômega o Senhor colocava em meu coração: AC e DC que traduzimos = antes de Cristo e depois de Cristo , mas no meu coração Jesus colocou AC= antes de conhecê-lo e DC= Depois de conhecê-lo . E sabemos muito bem que ao dizer conhecer na Sagrada Escritura é igual a Intimidade. Recebemos uma revelação e nos tornamos íntimos de Jesus.
Uma primeira idéia incompleta é pensar em Damasco somente sob a ótica de uma conversão moral: Paulo era um grande pecador e, a certa altura, compreendendo o mal que estava fazendo, muda sua maneira de viver. A conversão em nível de mudança ética, que denota a tenaz vontade de Paulo assinala uma profunda transformação e um caminho interior. Outra interpretação incompleta e redutiva é a de pensar em Paulo como o homem que muda de bandeira.
Um zeloso fariseu que, a partir de certo ponto, põe seu zelo, sua habilidade, sua oratória, sua incansável atividade ao serviço da nova bandeira de Cristo. Aqui só há mudança de Igreja; antes servia a Sinagoga, depois a Igreja de Cristo que ele viu como caminho vencedor. Se interpretarmos a conversão de Paulo desta maneira, a conseqüência é que aplicamos à nossa conversão ou à conversão dos outros este modo interpretativos, reduzimos muito a ação de Deus.
Paulo compreendia muito bem o que era uma conversão e sabia que a sua tinha todas as características de uma conversão. Contudo o evento por ele vivido tinha modalidades maiores e mais profundas. É preciso também dizer que, enquanto os sinóticos e os Atos usam com freqüência o vocabulário da conversão, João jamais o usa. Isto demonstra que no Novo Testamento há diferentes pontos de vista para captar a complexidade do fenômeno do caminho do homem para Deus. João prefere dizer: vir a Jesus, vir a Ele, ir a Ele. Este modelo já está mais próximo da leitura que Paulo fez da própria conversão.
Mas então quem era Paulo antes de Damasco? “Mas alcancei misericórdia, porque eu ainda não tinha abraçado a fé. E a graça de nosso Senhor se manifestou com grande riqueza, juntamente com a fé e a caridade, que provém da união com Cristo Jesus. Esta palavra merece crédito e toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. E se a misericórdia me foi dada, foi para que Jesus Cristo manifestasse primeiro em mim toda a sua generosidade, para que eu servisse de exemplo aos que devem crer a fim de conseguir a vida eterna” (1Tm 1, 13-16).
Eis todo o incompreensível e riquíssimo mistério desta conversão. Portanto, o evento de Damasco é muito mais complexo do que um simples episódio de uma conversão moral, de uma mudança de mentalidade. É algo tão rico que devemos aproximar-nos com muita humildade e reverência, convencidos de que compreendemos pouco, que sabemos pouco com relação a isto, mas que poderemos conhecer muito mais pela graça de Deus.
Então compreenderemos melhor a nós mesmos, o caminho da nossa vida e as nossas conversões. Terminemos fazendo-nos algumas perguntas fundamentais, de acordo com a meditação: quando foi que me converti? Existe em minha vida um “quando” da conversão ao qual posso referir-me como um momento histórico?
Como vivo o meu AC e o meu DC? Se nunca realizamos a fundo esta mudança de mentalidade, que é essencial para a vida cristã, ainda não chegamos a compreender o que é a novidade do caminho cristão, o voltar atrás. Se não compreendo bem as coisas ditas sobre Paulo, provavelmente é difícil que compreenda o que aconteceu em mim.
Sugestões de leituras: Atos 9, 22 e 26; Gl 1,15-16; Rm 8, 29-30; 1Cor 15,8-9; Fl 3, 4-9; 1Tm 1,12-16. |