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O que pode levar um jovem a se deparar com um vazio existencial?


Administrador A.O. | 7 outubro, 2019

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Visualizamos ao longo deste mês de setembro uma campanha entitulada “Setembro Amarelo”, fundada com o objetivo de prevenir o suicídio. Foi lançada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1999 por considerar, já naquele período, que este mal passou a ter uma conotação de saúde pública, dado os índices de tentativas de suicídio e de suicídios consumados. Mas o Brasil só aderiu a essa campanha em 2014. Os registros anuais são sempre crescentes. A OMS estima que a cada 40 segundos há uma tentativa de suicídio no mundo.

O suicídio já é considerado uma das 10 causas de morte mais recorrentes no mundo e a segunda principal causa de morte entre os jovens. Tendo os jovens como alvos primeiros da nossa ação evangelizadora, nós, como Comunidade e como Igreja, nos sentimos profundamente responsáveis por também levantar essa bandeira.

Índices alarmantes como esses colocam-nos frente a uma pergunta: que atitudes deveríamos tomar diante deste desafio? Sabemos que esses potenciais suicidas estão camuflados em nosso meio. Não podemos permanecer indiferentes.

Dificuldade de expor sentimentos

Precisamos quebrar os tabus que ainda existem e ter coragem de falar a respeito, saber reconhecê-los e como ajudá-los. Certamente vimos nas redes sociais ao longo desse mês várias postagens que traziam como mensagem: falar é o melhor remédio. E realmente nós sabemos que, dentro de um viés terapêutico, a fala é imprescindível para que a pessoa consiga se externar. Algo que tem preocupado muito aos profissionais da saúde mental é a dificuldade das pessoas exporem seus sentimentos.

Diante do seu sofrimento psíquico os jovens cada vez mais tem se escondido por trás da sua imagem digital. Além disso, o tabu que rodeia as doenças psíquicas e o suicídio impedem as pessoas que sofrem com as mesmas de procurarem ajuda ou, pelo menos, dificulta esse processo.

O suicídio está diretamente ligado a um adoecimento psicológico, como depressão ou outra doença psíquica, como também ao alcoolismo e/ou à dependência química, que são como um anestésico da alma, um meio que o homem encontra para fugir daquilo que o faz sofrer.

É um ato solitário por parte do sujeito que está imerso numa dor psicológica muito profunda e que, exatamente por isso, não consegue enxergar com objetividade o que está à sua volta. Não é raro depararmo-nos com jovens adultos que trazem na sua fala essa narrativa: “Minha vida não tem sentido”.

O que pode levar um jovem que tem um futuro todo pela frente a se deparar com um vazio existencial e concluir que sua vida não tem sentido? Qual é a raiz desse mal? Um sofrimento não trabalhado: decepção, ódio, rancor, falta de perdão, falta de aceitação, falta de amor.

A tríade valoritiva

São feridas descuidadas, que se transformam em um câncer: silencioso mas avassalador. A Logoterapia, que é uma das abordagens da psicologia, entende que o ser humano tem uma vontade de sentido e que o mesmo pode encontrar essa última através de 3 caminhos, a chamada tríade valoritiva.

Os valores criativos, que é tudo aquilo que a pessoa tem a oferecer a alguém e ao meio em que vive. Isso diz respeito à singularidade de cada um, ao dom particular que cada ser humano representa.

Os valores vivenciais, que é toda relação estabelecida pelo homem e aquilo que ele recebe por meio das mesmas. Logo, o homem é um ser chamado a amar (valor criativo) e a ser amado (valor vivencial).

Os valores atitudinais, onde não é mais a vida que dita como o homem deve seguir, mas é o homem que se responsabiliza e assume uma atitude livre para conduzir sua vida, mesmo diante do sofrimento.
O sofrimento é inerente à vida

Infelizmente vivemos numa sociedade cujo sistema é adoecedor. Evoluímos tecnologicamente, mas não damos mais tanta atenção ao que é próprio do ser humano. O sofrimento é inerente à vida. Nenhum de nós está livre desta possibilidade. A dor, a culpa, a morte visitará a todos.

“A vida só adquire forma a partir das marteladas que o destino lhes dá” (Viktor Frankl).

Para encontrar o verdadeiro sentido da vida a dor não pode ser uma realidade negada, pelo contrário, deve ser acolhida, encarada e vivenciada com paciência e sabedoria. É igualmente importante compreender que cada dor é singular e particular. Não podemos olhar para o sujeito dentro de uma perspectiva de massa. Ele é individuado.

Portanto, cada dor toma na vida de cada pessoa proporções próprias. Não cabem comparações. Não podemos salvar o mundo, mas podemos estar atentos aos que estão ao nosso redor. Para aqueles que se sentem tentados ou já pensaram em suicídio, saiba de uma coisa: você não está sozinho, você pode procurar ajuda.

O amanhã pode ser muito belo e você tem a oportunidade de viver para poder contemplar. É preciso ter coragem de enfrentar e viver essa dor para poder contemplar os frutos do amanhã. Porque, como diz a Palavra de Deus, “Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão” (Salmo 126,5).

Flávia Lima, Psicóloga
Membro da Comunidade de Aliança Shalom

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