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Fazer da Terra o Céu


Administrador A.O. | 16 dezembro, 2015

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Sim, querida senhora, vivamos com Deus como um amigo. Procuremos avivar nossa fé para comunicar-nos com Ele através de todas as coisas, pois assim conseguimos a santidade. Nós carregamos o céu dentro de nós, porque aqueEle que sacia os bem-aventurados, na luz da visão beatífica, entrega-se a nós na fé e no mistério. É a mesma coisa! Parece-me ter encontrado o meu céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma. O dia em que compreendi isto, tudo se iluminou dentro de mim…” (1)

Preparando-me para escrever este texto, busquei esse trecho de um escrito da Beata Elisabete da Trindade. Julgava ser de um tratado de espiritualidade, a parte por mim conhecida: “Parece-me ter encontrado o meu céu na terra, porque o céu é Deus e Deus está na minha alma”. Para minha surpresa era de uma carta, de uma pequena carta a uma nobre senhora francesa, provavelmente sua amiga ou benfeitora do Carmelo, onde Elisabete vivia.

Carta tão cotidiana e despretensiosa, mas que contém uma verdade tão concreta e necessária para nossas vidas. “Onde encontrar Deus? Como chegar ao céu? Como viver em Deus num mundo tão marcado pelos valores materiais?” São perguntas que cercam nossos corações e que podem ser respondidas dentro de nosso próprio coração e do nosso cotidiano.

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Elisabete era de uma mística profunda. Suas obras são compostas na maioria por cartas e por fragmentos de seu diário espiritual, por dois retiros, um deles denominado “Como encontrar o céu na terra” e alguns bilhetes e poesias. Nada mais. Entretanto, ao ler esses escritos nos deparamos com uma densidade espiritual extraordinária e que em muito pode nos socorrer em nossa vida cotidiana.

Todos queremos o céu! Ninguém deseja ou labuta para ir ao inferno. Pelo menos não nós, cristãos! Mas, o que de fato temos feito para conquistar o céu? Num mundo onde satisfazer as necessidades se tornou prioridade, como temos nos portado diante das coisas temporais e das eternas?

Temos com certeza inúmeras preocupações em nosso dia-a-dia, mas se quisermos chegar ao céu, ou melhor, viver desde já o céu, precisamos traçar um caminho, fazer um planejamento, colocar-nos metas que direcionem nossos passos e nos mantenham nessa busca, nesse encontro.
Vamos tentar neste pequeno espaço estabelecer, a partir das palavras de Elisabete da Trindade, alguns pontos necessários para encontramos o nosso céu na terra e a partir dele fazermos da terra o céu.

Encontrar Deus é encontrar o céu

Como vimos na citação acima, o céu é Deus. O céu é o estado em que as almas se encontram diante de Deus, estado de plena alegria e felicidade por contemplarem Deus face a face. Encontrar Deus dentro de nós é o primeiro passo – o mais importante talvez – que damos em direção ao céu. Ele está dentro de mim, dentro de você. Não precisamos fazer algo, mas simplesmente descobrir algo que lá já está. Cabe a mim, a você, nos colocarmos à procura dEste que em nós habita.

E como nos diz Elisabete, Ele “entrega-Se a nós na fé e no mistério”. Deus mesmo Se entrega, deseja ser encontrado por nós. Pela fé Ele se dá a encontrar dentro de nós; e no mistério, pela fé, se dá a encontrar na Eucaristia, que nas palavras da própria Elisabete “é o céu na terra” (2). Na Eucaristia, “sob as aparências da Hóstia, possuímos em substância, a visão beatífica dos bem-aventurados. Sim, é sempre o mesmo Deus que os bem-aventurados contemplam no esplendor do céu e nós, na fé” (3).

Adorar é o que fazem os santos na eternidade. Descobrir o céu na adoração ao Santíssimo Sacramento é descobrir o gosto pela eternidade. Muitos de nós temos dificuldades de adorar Jesus Eucarístico, seja numa adoração semanal, seja após a comunhão, pois, por mais absurdo que isso possa parecer, não encontramos na Eucaristia a presença de Jesus. Analogamente é o que disse Elisabete quando descobriu que o céu é Deus: tudo se iluminou! Quando encontrarmos a presença de Jesus – não que ela não esteja, mas que por ventura ainda não encontramos – tudo se iluminará e descobriremos este céu!

Permanecer em Deus

Após este “encontrar” Deus, é necessário que permaneçamos em Deus. Isso se dá pela vida de oração. “‘Permanecei em MIM’. É o Verbo de Deus quem nos dá essa ordem, quem exprime essa vontade. Permanecei em mim, não por alguns instantes, por algumas horas passageiras, mas permanecei de modo permanente, habitual. Permanecei em mim, orai em mim, adorai em mim, amai em mim, sofrei em mim, trabalhai, agi em mim. Permanecei em mim e então podeis vos apresentar a todos e a tudo; penetrai sempre mais nesta profundeza. (…)

Mas para ouvir esta palavra misteriosa, cumpre não se deter por assim dizer na superfície, mas penetrar cada vez mais no ser divino pelo recolhimento” (4). Deixar-se conduzir por Deus em tudo o que se faz… desejar ser conduzido… buscar esta permanência em Deus em tudo o que se faz, não o ausentando em nada; levando dentro de si a consciência e a presença verdadeira deste Deus.

Entender que orar não é um instante, um momento, mas uma vida que deve se transformar em louvor a Deus, louvor que nos prepara para o louvor eterno, diante da glória de Deus, onde nada se fará, nem nós, nem Deus, somente estaremos diante dEle… Entender que somos apenas criaturas, amadas e desejadas por Ele, e que dEle dependemos; para Ele e por Ele fomos criados… “Inquieto, Senhor, está nosso coração. E só repousará quando descansar em vós” (5).

Saber que só em Deus encontramos nosso repouso ajuda-nos a viver as inquietações do nosso dia-a-dia causadas pelas ocupações de nossa vida. E vivendo essa dinâmica dependência-gratidão- louvor, podemos fazer de nossa terra o céu.

Fazer da terra o céu

Viver o céu somente para nós não seria o céu. Deus sempre quer todos perto de Si e aquele que encontra Deus quer levá-lO aos outros e levá-los a Deus. Esta é a atitude de fazer da terra o céu. Semear o Reino de Deus, levar o céu aos outros pela nossa vida, pelo céu que portamos e vivemos dentro de nós.
A primeira característica de um santo, de alguém que a Igreja proclama que hoje vive na glória de Deus é a alegria.

Viver o céu é viver na alegria, que não é uma ausência de sofrimentos, mas uma certeza de que Deus é maior, de que mesmo ainda não vivendo a plenitude, posso antecipar o céu em minha alma, pela descoberta da presença de Deus e pela permanência nesta presença em meu dia-a-dia, na dependência deste Deus Criador, na gratidão pelo seu amor misericordioso e no louvor de participar e expressar sua glória em minha vida.

Pelo viver semeio em meu cotidiano as sementes do Reino; e pela graça de Deus, Sua presença floresce também na vida dos outros, seja pelo testemunho de vida, seja pela ação concreta do exercício da caridade, na doação de minha vida, na família, na Igreja, no trabalho, na sociedade, sendo expressão concreta do amor de Deus pelos homens.
Como o trecho da carta citada no inicio desse texto, expressemos em nosso cotidiano a descoberta do céu que existe dentro de nós e semeemos o Reino de Deus com nossas vidas, fazendo desta nossa terra o céu da glória de Deus!

(1) Beata Elizabete da Trindade, Obras Completas, Carta 107, à Condessa de Sourdon.
(2) Idem, Carta 138, ao seminarista Chevignard.
(3) Ibidem
(4) Beata Elisabete da Trindade, Obras Completas, Retiro “Como encontrar o Céu na terra”, 3-4.
(5) Santo Agostinho, “Confissões”.

Edgard Gonçalves
Consagrado na Comunidade Católica Pantokrator

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