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Efeitos da TV no comportamento das crianças e dos jovens


Administrador A.O. | 6 novembro, 2018

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Este é um diálogo comum e corriqueiro em muitos lares “cristãos”!… A televisão tomou o lugar do aconchego, da proximidade, da interação familiar. E os cuidados paternos foram transferidos para ela. Até a própria situação geográfica que ocupa nas residências, seja de que classe social for, é sempre privilegiada. Instala-se confortavelmente no lugar mas nobre da sala. Quando se trata de pessoas mais abastadas financeiramente, cada quarto possui seu aparelho de TV, isolando os componentes familiares em seu território individual e particular.

Analisar o efeito que a televisão produz sobre as pessoas e, principalmente, sobre as crianças apenas pelo lado negativo, seria considerado uma visão parcial, segmentada. Devemos considerar que há programas excelentes, que podem ensinar uma vasta gama de habilidades e condutas importantes para o desenvolvimento social, bem como aceleram o aprimoramento lingüístico das crianças, sua imaginação, curiosidade e inteligência.

As crianças são motivadas, muitas vezes, a aprender e a crescer a partir de imagens, idéias e descobrimento de culturas diversas, ricas e que formam o todo da humanidade.

Através da televisão, o mundo inteiro entra em sintonia em questão de segundos, via satélite. Ficamos, desse modo, informados e podemos desfrutar de momentos de profunda beleza.

Convém, no entanto, alertar para a forma e a intensidade com que as pessoas, e principalmente, as crianças, assistem a televisão.

As pesquisas indicam que as crianças com idade entre 6 e 11 anos assistem à televisão em média vinte e cinco a trinta horas por semana (Projeto Lobato-Rio). Na época em que estão terminando o 1º Grau, já acumularam em torno de vinte e mil e quinhentas horas de freqüência às aulas. Os jovens gastam mais tempo assistindo à televisão do que consomem em conjunto comendo, lendo e brincando.

Violência e Sensualidade

Eduardo Santoro, um psicólogo da Venezuela, preocupado com a programação infantil da TV, realizou uma pesquisa que mostra até que ponto o mundo da criança se molda a partir dos valores, comportamentos e ideologias contidas nas emissões: em vez de fazer perguntas sobre suas preferências, ele deu às crianças uma folha de papel onde havia o desenho de vários vídeos de televisores em branco e pediu que desenhassem uma história, como as que são vistas nos programas de televisão.

Os resultados foram interessantes. Após análise dos desenhos, constatou o predomínio da violência: 37% das histórias abordavam esse tema, enquanto que o tema amor chegou apenas a 2%.

Logo depois, ao serem indagados sobre o motivo da história, 32% das respostas foram a possessão de materiais, aquisição de dinheiro, riqueza, etc… quanto à condição econômica dos personagens, 57% dos bons eram ricos e 100% dos maus, pobres.
Estes dados são preocupantes pelo teor, pela mensagem que vai sendo introjetada nas crianças e jovens.

Os filmes que passam na televisão brasileira, geralmente importados, apresentam em média 5,7 cenas de assassinato, estupro, incesto e outras atrocidades por filme.

Por seu lado, os relacionamentos afetivos veiculados são em sua maioria, via novelas, baseados no sexo e na sensualidade deturpada, cheia de chantagens, adultério, fornicação, sem o respeito ao outro, sem laços de afeto, tornando-se difícil para o adolescente que inicia seus primeiros passos sexuais, compreender como se ama, como se expressa carinho e afetividade sem ser necessário e unicamente pela genitalidade, ocasionando dúvidas e transtornos emocionais, muitas vezes irreversíveis.

Sobre os comerciais
Samuel Pfromm Neto, pesquisador, concluiu através do livro “Tecnologia da Educação e Comunicação de Massa” que as crianças brasileiras estão vendo mais televisão do que as de outros países e que isto tem repercutido no padrão de consumo da nação. Demonstrou ele que os comerciais de televisão também podem gerar problemas diversos.

A criança comum assiste a mais de quatrocentos comerciais por semana, mais de vinte mil por ano. 82% deles tratam de alimentação, bolos, lanches, doces, etc… 12% dos comerciais referem-se a brinquedos. Essa pressão constante sobre as crianças para que desejem algo que estejam vendo pode distorcer sua capacidade de ver e avaliar com equilíbrio o que lhes vem pela frente. Os pais são levados a qualquer sacrifício pois “Toda menina tem que ter uma Barbie”.

As crianças e também os adultos, segundo Charles Atkins, consumindo as emissões publicitárias, passam a gostar e acreditar mais nos produtos anunciados: “Danoninho, vale por um bifinho…”. Mesmo que não valha, vultosas somas de dinheiro são empregadas em alimentos sem real valor nutritivo, imposto pela indústria cultural. A tendência é obter estes produtos a todo custo, integrado-os desde cedo aos aspectos consumistas da sociedade moderna. A televisão impõe a cultura.

Não se tem uma linguagem própria, não se caminha com os próprios pés, perde-se a identidade, como lemos em Sab 15,15-18: “Recebem a alma de empréstimo. Não podem servir-se de seus olhos para ver, nem de nariz para aspirar o ar, nem ouvidos para ouvir e os pés são incapazes de andar”. O homem passa a não pensar por si, começa a “cultuar ídolos mais odiosos que os piores animais irracionais”, e recorre a eles nos perigos iminentes.

Vemos agora como característica de programas infantis, principalmente, a invasão do vídeo por monstros estrangeiros: são vampiros, serpentes gigantescas, robôs e máquinas eletrônicas inteligentes, múmias e fantasmas, bons e maus. Eles são destruidores, atacam sem pretexto, surgem de repente, destroem e desaparecem sem qualquer explicação.

Responsáveis pelo sono agitado das crianças que, ao mesmo tempo, temem e reverenciam tais figuras. Não parece estranho? Diabólico? E quando as crianças vão ao revide em situações do dia-a-dia na escola com os coleguinhas, reagem tendo como padrão, como referencial e modelo, os modos, trejeitos, caretas e malignidade que não são seus, mas dos monstros televisivos…

Não só as crianças, também os jovens. Lembremo-nos do episódio de Marco Antônio, que no fulgor dos seus 16 anos, foi massacrado por outros jovens da mesma faixa etária, em Brasília, tendo como pano de fundo as lutas marciais, que são veiculadas em filmes heróicos pela TV.

“Fomos seduzidos pelas invenções da arte corruptora dos homens… borradas figura de cores misturadas, cuja vista exercita os desejos insensatos, fantasma inanimado de uma imagem sem vida que provoca a paixão, os desejos desenfreados…” (Sab 15,4-5).

O que fazer

Quando as crianças estão “de olho na tela”, não estão conversando com outras pessoas. E quem falar na hora da novela ou do noticiário, é bem capaz de apanhar, mesmo que não tenha visto os pais durante o dia inteiro, mas nada é mais importante, naquele momento, do que aquela notícia.

Quando a família está “reunida” em torno da TV, em silêncio, está vivendo através da vida de outras pessoas, em vez de viver sua própria vida. A vida real é mascarada. Os problemas comuns não são resolvidos, os diálogos adiados e os laços afrouxados.

O que fazer? Vender a televisão? Proibir peremptoriamente que as pessoas assistam aos programas costumeiros?

Para responder, recorramos ao livro do Eclesiastes 11,6: “Semeia a tua semente desde a manhã e não deixe tuas mãos ociosas à noite”. É precioso pensar a educação dos filhos e da família com responsabilidade. Para educar é preciso desgaste físico, tempo investido. É preciso morrer um pouco em relação à acomodação e ao “relaxamento”.

Se as crianças ainda são pequenas, melhor ainda, você pode criar situações divertidas como recortar, fazer montagem, brincar de cozinha, contar histórias ou inventa-las, brincar na areia com garrafas e tampas, passear mesmo no quarteirão, descobrindo novidades. Inventando opções com boa vontade e alegria, as crianças não terão a TV como primeira opção de lazer; elas até esquecem de sua existência.

Uma mãe ou pai disponível e feliz atrai mais a criança que a TV.

Se eles já estão “viciados”, “ telespectadores inveterados”, procure atividades como natação, vôlei, dança, inglês, o que eles mostrarem maior tendência. Às vezes, até os Centros Comunitários oferecem esses serviços de graça ou com taxas ínfimas: é um investimento que tem retorno. “Quem trata de sua figueira, comerá seu fruto” (Prov. 27,18).

Grupos de oração e formação também são excelentes opções. Nunca, porém, utilize a alegativa: “Vou matricular você na aula de inglês para ver se deixa de assistir a tanta televisão…”
Uma observação se faz necessária: a influência dos pais e seu comportamento afetam profundamente os hábitos televisivos dos filhos. As crianças que mais assistem à televisão têm pais que também fazem os mesmo.

Finalmente, não queremos sugerir aqui o banimento total da televisão, mas, que os apresentem outras opções a seus filhos, como também estabeleçam critérios quanto aos programas a serem assistidos, se possível juntos, para que sejam apreciados em conjunto.
Um programa infantil que respeite a criança e o jovem não é necessariamente aborrecido, impostamente sério, parecendo-se com uma sala de aula repressiva. Nem significa que se deva excluir toda fantasia. A fantasia tanto na criança como no jovem é indispensável à sua visão de mundo e à sua integração no real.

Regina Elisabeth Mattos Dourado de Mesquita
Pedagoga e Mestra em Educação

BIBLIOGRAFIA
1. ATKINS, Charles. Efeitos da publicidade televisada sobre as crianças.
2. PFROMM NETO,Samuel. Tecnologia da educação e comunicação de massa. Pioneira: São Paulo.
3. FUGULIN, Ana Lúcia. Os meios de comunicação e a criança.
4. SWEDWR, Gerri. Pais que trabalham fora. Ed. Saraiva, 1991.

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