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A BÊNÇÃO

Há tempos, num curso, alguém me falou: “Eu gostaria que você me desse uma definição a respeito do que é bênção”. No primeiro estágio da resposta disse-lhe que se ele tivesse feito essa pergunta a Esdras ou Neemias, a solução provavelmente seria curta e precisa: “bênção é a mão de Deus sobre nós” Ambos usaram essa expressão cerca de nove vezes, falando do bom, generoso e poderoso efeito da mão de Deus. Desse modo, a afirmação dos dois atinge o cerne da questão. Também poderíamos dizer: bênção significa “Deus está conosco!”.

A palavra bênção, no hebraico tem a raiz semita b-r-k que dá origem ao termo beraká, que traduz uma oferta, oportunidade ou chance. Com ela se exprimem dois elementos essenciais do pensamento bíblico: a felicidade humana e o dom divino que é sua fonte. O verbo “abençoar” traz consigo o significado de uma comunicação dos bens divinos garantidos por um mediador: o pai (para a família), o rei (para a nação), o sacerdote (para os que freqüentam o templo), o ministro (para a comunidade religiosa). Vários eventos humanos são vistos na Bíblia como bênçãos, tais como a fecundidade da esposa, a vitalidade dos filhos, a felicidade da comunidade, as boas safras e abundância das colheitas, o convívio com os amigos, etc.

Esta felicidade é vista como o resultado maravilhoso da hesêd (misericórdia) de Deus: “Tu és bendito do Senhor teu Deus” (Gn 49,19; Lc 1,42), diz o fiel. É finalmente no próprio Deus que se focaliza esse louvor: “Bendito seja o Deus Altíssimo” (Gn 14,20; Lc 1,68).

Do verbo “abençoar” vem-nos o particípio baruk, que constitui o âmago da forma israelita da bênção: “Bendito seja...”. Trata-se de uma entusiasta manifestação a respeito de alguém a quem Deus acaba de revelar seu poder e sua generosidade.

No Antigo Testamento, a bênção, em geral, se refere a algum tipo de bem-estar terreno, segurança, poder, riqueza, descendência, etc., e essa bênção está expressamente condicionada à obediência aos mandamentos de Deus: Eis que, hoje, eu ponho diante de ti a bênção e a maldição: a bênção, quando cumprirdes os mandamentos do Senhor, teu Deus, que hoje te ordeno; a maldição, se não cumprires os mandamentos do Senhor, te Deus, mas te desviares do caminho que hoje ordeno, para seguires outros deuses que não conheceste (Dt 1,26-28).

A bênção para a Igreja de Jesus, o povo de Deus, tem uma conotação transcendente: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3). A bênção de Deus – “Emanuel” – tornou-se homem em Jesus Cristo! Por isso também podemos descrever a idéia de bênção como sendo “a ação de Deus com uma pessoa para atraí-la mais profundamente para sua comunhão”. Isso significa que a bênção nem sempre é o que desejamos, mas sempre se trata daquilo que é bom e salutar para nós. A validade é sempre atual: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Por ser um embaixador em nome de Cristo, Paulo podia dizer: “E bem sei que, ao visitar-vos, irei à plenitude da bênção de Cristo” (Rm 15,29). Anunciando todo o desígnio de Deus, o apóstolo ministrava toda a bênção de Cristo às pessoas e às comunidades. Quando crentes abençoam outras pessoas, isso significa que imploram a bênção de Deus sobre suas vidas. Quando crianças são abençoadas na igreja, ou sem casa pelos pais, em nome de Jesus, nós as colocamos sob a bênção do Senhor e as entregamos à fidelidade e à direção de Deus. Igualmente, a bênção que se dá aos enfermos implica em colocá-los sob a proteção divina. Ao abençoarmos o cálice e o pão na Eucaristia, consagramos essas dádivas naturais da videira e do trigo para uso divino.

No texto original, o significado da palavra bênção ou do verbo abençoar tem, entre outros, o significado de falar bem de alguém. Será que temos abençoado nossos irmãos e nossas irmãs dessa maneira? É uma questão.

O fato é que tudo nessa vida tem um sentido. Por essa razão, tão importante quanto receber uma bênção espiritual é compreender que ela possui um propósito superior à simples necessidade de obtê-la. Por desconsiderar esse ensino, muitas pessoas passaram toda sua vida correndo atrás de todo o tipo de bênçãos, sem, contudo, conseguirem uma satisfação daquilo que desejavam. Há os que buscam a bênção na igreja, outros nos “passes” dos ambientes espíritas ou até coisa pior. Qual, pois, é o sentido maior de uma bênção cristã?

Para obter resposta, encontramos uma pista nas palavras do apóstolo João: “Este foi o primeiro sinal de Jesus, realizado em Caná da Galiléia; ele manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo 2,11). A partir desse texto, podemos compreender três aspectos que envolvem o sentido da bênção espiritual.

Primeiramente, em vez de olharmos ou buscarmos uma bênção apenas como um suprimento de uma necessidade, ela deve ser para nós um sinal do poder de Deus. Dito de outra maneira, a bênção espiritual deve ser considerada como um feixe de luz através do qual Deus projeta algo de valor muito superior. O milagre em Caná, como foi visto, revelou, antes de tudo, um sinal. Note-se que ele foi uma bênção para os noivos, para a alegria da festa, mas principalmente, um milagre, ou seja, uma bênção com um propósito definido. Entender isso é fundamental!

Em segundo lugar devemos sempre olhar ou buscar uma bênção de Deus com a consciência de que a mesma terá incondicionalmente de manifestar para nós e para os outros o poder e a glória de Deus. É importante que se compreenda a importância desse ensino. Muitas pessoas vão à igreja apenas para buscar milagres de Deus. Elas não querem mais nada; seu propósito é simplesmente buscar um socorro, e visa unicamente receber essa bênção. Caso a recebam, o único motivo que podem levá-las a permanecer na casa de Deus é o desejo de conseguir outra bênção. Nada mais que isso. Seus olhos, de forma egoísta, são tão somente para si.

Deus, apesar de ser considerado o doador de todos os dons, para essas pessoas, ele não passa de apenas uma saída a mais.  Os meus problemas são o mais importante. De forma que se Deus não der a bênção, simplesmente desisto dele. As coisas não funcionam deste modo. Deus não quer somente suprir nossas necessidades momentâneas. Ele tem um projeto, algo superior para nós. Perceba-se a sua maravilhosa graça. Ele nos ajuda, e juntamente com essa ajuda decide manifestar sua glória, seu poder, sua força, sua sabedoria. Todavia, Deus não faz isso sem propósito. Ele o faz, primeiro porque nos ama, e depois porque quer nos dar a plenitude de sua bênção. Por essa razão que seguimos adiante na vida.

Finalmente, chegamos ao terceiro aspecto que envolve a bênção espiritual: a fé em Jesus. Que coisa maravilhosa a fé! É por isso e para isso que Deus nos abençoa com seus milagres! Deus quer nos entregar a maior bênção que existe: Cristo, seu filho. Ele é a plenitude da bênção espiritual. Ele, sim, merece a atenção principal. Na festa em Caná, ele foi a figura principal. Ele estava lá, não somente para operar o milagre, mas, sobretudo, para revelar a glória de Deus, levando os discípulos a crerem nele. Como é bom saber disso!

Cristo é o verdadeiro sentido da bênção espiritual. Ele realizou o milagre como um sinal do poder do Pai que o enviou para que “todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Crer em Jesus Cristo é o grande sentido para a vida dos cristãos. Ora, o que isto representa para a nossa vida? Cristo é sinônimo de “vida em abundância” (cf. Jo 10,10). E tudo o que ele faz com nossa vida é para que a gente creia que Jesus é o Cristo, o filho de Deus, e para que, crendo, tenhamos vida em seu nome (cf. Jo 20,31).

O que estamos esperando? Não percamos tempo! Deus tem muitas graças e bênçãos para nos dar! Que o Pai nos faça compreender que em Cristo recebemos a “plenitude e graça sobre graça” (cf. Jo 1,16). Aliás, nós nem temos tanto tempo assim. É bom clamar por Deus neste momento de nossas vidas. Não sabemos como será o nosso amanhã. “Busque a Deus enquanto ele está por perto; procure o Senhor enquanto ele se deixa encontrar” (Is 55,6).

Por esta razão, convide Jesus para estar perto de você. Compreenda, é você que precisa dele. Não há dúvida de que aqui e acolá faltará vinho em sua vida. Esta vida é repleta de surpresa. A qualquer momento você poderá encontrar-se em desespero. Não terá vinho e não saberá resolver a situação. Sempre necessitamos de uma benção. Você compreende o que digo? Será que não está faltando nada em sua vida? Admitir a necessidade é o primeiro passo. Depois é só buscar sua bênção, na certeza de que Cristo quer, além de suprir nossas necessidades, fazer que contemplemos a glória de Deus, manifestada nele. Para que a bênção ocorra, é preciso que se faça tudo o que ele mandar (cf. Jo 2,5) e confiar inteiramente no poder e sabedoria de Deus.

Historicamente, vemos que desde o Israel antigo, a bênção era considerada como manifestação do poder de Deus (cf. Gn 13,2). Igualmente era transmitida do pai moribundo ao filho, um poder concreto e subsistente, em geral através da imposição das mãos (cf. 8,14.17), pela palavra, ou através de um presente (cf. 33,11). Materialmente, a bênção se estendia a todas as propriedades do abençoado (cf. Dt 28,3-6).

No Novo Testamento, mantém-se o foco das antigas bênçãos. Jesus abençoa as crianças (cf. Mc 10,16), seus discípulos (cf. Lc 24,50), os pães (cf. Mc 6,41), etc. Igualmente Jesus ensinou aos discípulos a responder com uma bênção às maldições de seus inimigos (cf. Lc 6,28). Ele descreveu a eterna felicidade dos justos como a bênção definitiva dada pelo Pai, ao contrário das maldições que cairão sobre os que rejeitarem a salvação (cf. Mt 25, 34-41).

No seio da família observa-se como é preciosa bênção dos pais. Eles são os primeiros mensageiros de Deus na vida dos filhos. Quando eu era criança, recordo, que se pedia, antes de dormir ou em qualquer outra circunstância do dia, a bênção aos nossos pais, avós e padrinhos, beijando, não-raro, suas mãos. Sem a bênção, parecia-nos que faltava algo à nossa segurança ou ao sucesso de nossos planos diários. Hoje, passados os anos, tenho profunda consciência da importância da bênção dos pais na vida dos filhos. É a Sagrada Escritura que nos alerta sobre a necessidade dessa bênção.

Toda a Escritura está repleta de passagens indicando a importância que Deus dá aos pais na vida dos filhos. Os pais são os cooperadores de Deus na criação dos filhos e, dessa forma, são também um canal aberto para que a bênção divina chegue às crianças, jovens e adolescentes. O livro do Deuteronômio registra o quarto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe, como te mandou o Senhor, para que se prolonguem teus dias e prosperes na terra que te deu o Senhor teu Deus” (Dt 5,16). Dessa forma, Deus promete vida longa e prosperidade àqueles que honram os pais. São Paulo disse que esse é “o primeiro mandamento acompanhado de uma promessa de Deus” (Ef 6,2).

Os livros dos Provérbios e do Eclesiástico estão cheios de versículos que trazem a marca da presença dos pais. Eis um deles: “A bênção paterna fortalece a casa de seus filhos, a maldição de uma mãe a arrasa até os alicerces” (Eclo 3,11). Esse versículo mostra que a bênção dos pais não é simplesmente uma tradição do passado ou mera formalidade social. Muito mais do que isso, a Sagrada Escritura nos assegura que a bênção dos pais é algo eficaz e real, isto é, um meio que Deus escolheu para agraciar os filhos. O Senhor quis outorgar aos pais o direito e o poder de fazer a sua bênção chegar aos filhos. É a forma que Deus usou para deixar clara a importância dos genitores. Acho que seria interessante perguntar: hoje, costumamos abençoar nossos filhos?

Vários trechos da Bíblia mostram claramente a grande importância que Deus dá aos pais na vida dos filhos e, de modo especial, à bênção paterna e materna. Esta bênção traz em si, como uma delegação que Deus outorga aos pais, em favor de seus filhos. Infelizmente, hoje em dia, talvez como fruto do materialismo ou pragmatismo de nosso tempo, muitos pais já não lembram disto, ou não sentem a prerrogativa de que Deus lhes deu para educar na fé, formar e abençoar os filhos. Muitos já não acreditam no poder da bênção paterna e nem mesmo ensinam os filhos a pedi-la.

Foi com copiosas bênçãos que Deus coroou todos os atos da sua criação, ao dizer que tudo estava muito bom. Primeiro ele abençoou o homem e o seu trabalho. Depois abençoou o sétimo dia. O homem foi abençoado para poder empreender tudo o que o Criador projetou que ele fizesse. O sétimo dia foi abençoado e santificado para ser ocasião de descanso e reflexão. Abençoando-o, Deus relacionou-se intimamente com o homem, com o trabalho e com o sábado (judaico) e o domingo (cristão), realidades que ele próprio idealizou.

As Sagradas Escrituras estão repletas de situações de bênçãos, onde a benção proferida por Deus e aquela levada a efeito pelo homem se entrelaçam: Gn 27,27ss; Gn 49,25s.

Os batizados são chamados a abençoar e a ser uma bênção, que está intimamente ligada ao sacerdócio batismal. Todo batizado é chamado a participar do processo de “bênção”, eis por que os leigos podem presidir certas bênçãos.

Na liturgia da Igreja, a bênção divina é plenamente revelada e comunicada: o Pai é reconhecido e adorado como a fonte e o fim de todas as bênçãos da criação e da salvação; em seu Verbo, encarnado, morto e ressuscitado por nós, o Pai nos cumula com suas bênçãos, e por meio dele derrama em nossos corações o dom que contém todos os dons: o Espírito Santo.

A bênção da Igreja é continuadora da bênção de Deus. Na liturgia da noite pascal, quando ocorre a bênção da água batismal, a Igreja faz solenemente memória dos grandes acontecimentos da história da salvação que já prefiguravam o mistério do Batismo: “Ó Deus, pelos sinais visíveis dos sacramentos realizais maravilhas invisíveis. Ao longo da história da salvação, vós vos servistes da água para fazer-nos conhecer a graça do Batismo”.

A bênção solene conclui a celebração do batismo. Por ocasião desse sacramento, a bênção da mãe e do pai ocupa um lugar especial. As diversas liturgias são ricas em orações de bênçãos e de epicleses para pedir a Deus a graça e a bênção.

Entre os chamados “sacramentais”, figuram em primeiro lugar as bênçãos (de pessoas, da mesa, de objetos e lugares). Toda bênção é um ato de louvor a Deus e pedido para obter seus dons. Em Cristo, os cristãos são abençoados por Deus, o Pai “de toda a sorte de bênçãos espirituais” (Ef 1,3). E por isso que a Igreja dá a bênção invocando o nome de Jesus e fazendo habitualmente o sinal sagrado da cruz de Cristo (Catecismo1671).

No conhecido “hino cristológico” contido na carta de São Paulo aos efésios, já referido aqui, observa-se a existência de uma vigorosa atitude em que o fiel bendiz (abençoa) a Deus, por causa de sua benevolência:

Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele escolheu-nos antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória de sua graça, com a qual ele nos agraciou no Bem-amado (Ef 1,3-6).

Abençoar é uma ação divina que dá a vida e da qual o Pai é a fonte. Sua bênção é, ao mesmo tempo, palavra e dom. No latim é benedictio, e no grego é euloguia. Aplicado à vida do ser humano, esse termo significa a adoração e a entrega a seu criador, na ação de graças. Bendizer é prestar um elogio.

Desde o início até a consumação dos tempos, toda a obra de Deus é bênção. A partir do poema litúrgico da primeira criação (Gn) até os cânticos da Jerusalém celeste (Ap) os autores inspirados anunciam o projeto de salvação como uma imensa bênção divina.

Nos primórdios, Deus abençoa os seres vivos, especialmente o homem e a mulher. Na aliança com Noé e com todos os seres animados ele renova esta bênção de fecundidade. Mas é a partir de Abraão o que a bênção divina penetra a história dos homens, que caminhava para a morte, para fazê-la retomar à vida, à sua fonte: pela fé do “pai dos crentes” que acolhe a bênção, inaugura-se a história da salvação (Catecismo 1080).

As bênçãos divinas se manifestam em eventos impressionantes e salvíficos, como o nascimento de Isaac, a saída do Egito (Páscoa e Êxodo), o dom da Terra Prometida, a unção de Davi, a presença de Deus no templo, o exílio purificador e o retomo daquele “pequeno resto” anunciado pela profecia de antes do exílio. A lei, os profetas e os salmos, esse magnífico conjunto de escritos que organiza, a espiritualidade e tecem a liturgia do povo eleito, lembram essas bênçãos divinas e ao mesmo tempo lhes respondem mediante as bênçãos de louvor e de ação de graças.

Na liturgia da Igreja, a bênção divina é plenamente revelada e comunicada: o Pai é reconhecido e adorado como peghé (fonte) e o fim de todas as bênçãos da criação e da salvação. Em seu Verbo, encarnado, morto e ressuscitado por nós, o Pai nos cumula com suas bênçãos, e por meio do Filho derrama em nossos corações o dom que contém todos os dons: o Espírito Santo. Nessa liturgia, Deus Pai é bendito e adorado como a fonte de todas as bênçãos da criação e da salvação, com as quais nos abençoou em seu Filho, para dar-nos o Espírito da adoção filial.

Na antiga aliança, o pão e o vinho foram oferecidos em sacrifício entre as primícias da terra, em sinal de reconhecimento ao Criador. Mas eles recebem também um novo significado no contexto do êxodo: os pães ázimos que Israel come cada ano na Páscoa comemoram a pressa da partida libertadora do Egito; a recordação do maná do deserto há de lembrar sempre a Israel (e a nós por continuação) que ele vive do pão da Palavra de Deus. Finalmente, o pão de todos os dias é o fruto da Terra Prometida, penhor da fidelidade de Deus às suas promessas. O “cálice de bênção” (cf. 1Cor 10,16), no fim da refeição pascal dos judeus, acrescenta à alegria festiva do vinho a dimensão escatológica da espera messiânica do restabelecimento de Jerusalém. Jesus instituiu sua Eucaristia dando um sentido novo e definitivo à bênção do pão e do vinho.

O milagre da multiplicação dos pães, quando o Senhor proferiu a bênção, partiu e distribuiu os pães a seus discípulos para alimentar a multidão, prefigura a superabundância deste único pão de sua Eucaristia. O sinal da água transformada em vinho em Caná já anuncia a hora da glorificação de Jesus, e antecipa a realização da ceia na casa do Pai, onde os fiéis beberão o vinho novo, prefigurado pelo de Cristo.

Na epiclese (oração de “vinde”, em geral impetrada ao Espírito Santo) eucarística, a Igreja pede ao Pai que envie seu Espírito Santo (ou o poder de sua bênção) sobre o pão e o vinho, para que se tornem o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, e para que aqueles que tomam parte na Eucaristia sejam um só corpo e um só espírito. Certas tradições litúrgicas colocam a epiclese depois da anamnese (memória). No relato da instituição da Eucaristia, a força das palavras e da ação de Cristo, e o poder do Espírito Santo tornam sacramentalmente presentes, sob as espécies do pão e do vinho, o Corpo e o Sangue de Cristo, seu sacrifício oferecido na cruz uma vez por todas. Está ali uma das maiores bênçãos que ocorre na Igreja.

Duas formas fundamentais exprimem esse movimento da bênção: ora ela sobe, levada no Espírito Santo por Cristo ao Pai (nós o bendizemos por nos ter abençoado); ora ela implora a graça do Espírito Santo, que, por Cristo, desce de junto do Pai (é Ele que nos abençoa).

Nos sofrimentos da vida vemos que a morte é transformada por Cristo. Os evangelhos nos revelam que Jesus, o Filho de Deus sofreu também a morte, própria da condição humana. Todavia, apesar de seu pavor diante dela, assumiu-a em um ato de submissão total e livre à vontade de seu Pai. A obediência de Jesus transformou a maldição da morte em uma bênção.

Também na Bíblia vemos o entrelaçamento da bênção e da oração.Os salmos, por exemplo, são marcados por características constantes: a simplicidade e a espontaneidade da oração, o desejo do próprio Deus através de tudo o que é bom em sua criação, a situação desconfortável do crente que, em seu amor preferencial ao Senhor, está exposto a uma multidão de inimigos e tentações e, na expectativa do que fará o Deus fiel, a certeza de seu amor e a entrega à sua vontade. A oração dos Salmos é sempre motivada pelo louvor. Feita para o culto da Assembléia, ela anuncia o convite à oração e canta-lhe a resposta: “Aleluia”, Louvai o Senhor!

Haverá algo melhor, em termos de oração e louvor do que um Salmo? É por isso que Davi diz muito acertadamente: “Louvem o Senhor, pois o Salmo é uma coisa boa. Ao nosso Deus, um louvor suave e belo!” O Salmo é bênção pronunciada pelo povo, louvor de fé pela assembléia, aplauso de todos, palavra dita pelo universo, voz da Igreja e melodiosa profissão de fé.

Na “encarnação”, o Pai abençoa Maria de modo singular. A graça e a alegria apontam para uma bênção. A “Ave, Maria (alegra-te, Maria)” é a saudação do anjo Gabriel que abre a oração universalmente conhecida. É o próprio Deus que, por intermédio de seu anjo, saúda Maria. Nossa oração ousa retomar a saudação de Maria com o olhar que Deus lançou sobre sua humilde serva, alegrando-nos com a mesma alegria que Deus encontra nela. O “Cheia de graça, o Senhor está contigo” soa como uma autêntica bênção. As duas palavras de saudação do anjo se esclarecem mutuamente. Maria é cheia de graça porque o Senhor está com ela.

A graça com que ela é cumulada é a presença daquele que é a fonte de toda graça. “Alegra-te, filha de Jerusalém... o Senhor está no meio de ti” (Sf 3,14.17a). Maria, em quem vem habitar o próprio Senhor, é em pessoa a filha de Sião, a Arca da Aliança, o lugar onde reside a glória do Senhor: ela torna-se, por sua fé e disponibilidade, “a morada de Deus entre os homens” (Ap 21,3). Porque Deus a abençoou é que seu coração pode bendizer por sua vez aquele que é a fonte de todo o seu júbilo.

Afinal de contas, e esta questão também é uma constante no meio das comunidades: o que é essencial para ser abençoado por Deus? A bênção pressupõe alguns requisitos que vamos relacionar aqui. É o conjunto de três atitudes que quando combinadas culminam no melhor do Pai para a nossa existência.

1) Conhecimento

A fé sem entendimento é algo vazio. Muita gente boa entra em verdadeiras armadilhas de pessoas sem escrúpulos porque não sabe como é o mundo de Deus: simples e descomplicado. Você não precisa ser um “doutor” para ser abençoado por Deus; basta desejar a benção e ter um coração puro;

2) Fazer a oração da fé

Fé é a certeza de que aquilo que você espera se realizará, logicamente dentro do projeto de Deus. Sem fé é impossível agradar a Deus. Fé é o contrário do ver para crer. “E, tudo o que vocês pedirem, com fé, na oração, vocês receberão” (Mt 21,22).

3) Confessar a sua bênção

Cuidado com o ocorre após sua oração! Não é raro a pessoa perder a bênção que estava em suas mãos por causa do que ela fala por aí. Orou com fé, então não destrua o seu pleito falando (ou fazendo) coisas ao contrário do que você espera. Não queime a sua oração com uma boca negativa. Ao contrário, “Quem fala a verdade manifesta a justiça” (Pv 12,17).

Ainda no terreno das questões, a pergunta que muitos fazem é “quem pode abençoar?” Na verdade, a todo batizado é facultada a capacidade de invocar bênçãos. O sacramento do batismo é mais importante que qualquer outra investidura, e todo aquele que invocar a bênção de Deus, ela acontecerá. Em alguns ambientes diocesanos, talvez mais por uma questão cultural ou de tradição, não é bem vista a bênção ministrada por leigos. Os padres não gostam e o público não aceita totalmente.

Já nos ambientes franciscanos e capuchinhos a coisa muda de figura. Lá os leigos são chamados, junto com os freis a serem “ministros da bênção”, impondo as mãos e abençoando pessoas, casas, objetos e animais. A bênção não traz em si o poder do ministro, seja ele quem for, pois é realizada em nome do Deus Trinitário. Com alegria e santo orgulho participei, por vários anos, junto com Carmen, minha mulher, do quadro de “ministros da bênção” da igreja Santo Antônio, no bairro do Partenon, em Porto Alegre. Lá, ás terças-feiras (dia de Santo Antônio) e aos fins de semana, milhares de pessoas vinham buscar graças, especialmente a “benção da saúde”. Quando Deus abençoa alguém, esta bênção é para ser compartilhada. Deus, pela bênção, sempre cumpre o desejo do coração do justo.

Haurida dentro da riqueza do Antigo Testamento, a conhecida “Benção de Aarão”, que aparece no livro dos Números (6, 24-26), e hoje consagrada como a “benção franciscana” é sempre atual e empregada em todos os ambientes cristãos: Deus te abençoe e te guarde! Ele te mostre a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu olhar e te dê a sua paz! Amém.

É esta a Bênção proferida por Aarão quando de sua consagração (Lv 9,22) que aqui se insere: Disse mais Javé a Moisés: Fala a Aarão, e a seus filhos, dizendo: Assim abençoareis os filhos de Israel; dir-lhes-eis: “Javé te abençoe e te guarde. Javé faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te seja benigno. Javé mostre o seu rosto para ti e te dê a paz”. Assim porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei (Nm 6,22-27).

Nesta bênção, três vezes se repete o nome de Javé, numa evocação gloriosa de sua majestade e poder, que vai jorrar sobre o Povo de Israel em forma de misericórdia. Proporcionará ao povo a fecundidade e a abundância de todos os bens então aspirados, de fartas colheitas, numeroso rebanho e manada, além de feliz e numerosa posteridade. Os próprios pais também tinham este poder de abençoar em nome de Javé como já se viu quando Isaac abençoou Jacó (Gn 27,27-29), assim como Jacó abençoou José (Gn 49,25-26). As bênçãos em nome de Javé continham em germe, potencialmente, todo o teor da fecundidade que por ela se outorgava.

Deste modo, a fórmula franciscana (ou “benção de Aarão”) é usada em todo tipo de bênção que se utiliza hoje em dia, seja por ministros leigos ou consagrados. Retomada na liturgia pós-conciliar, a bênção franciscana foi colocada no novo missal como primeira entre as possíveis bênçãos solenes do ano. Além disso, a leitura de Nm 6,22-26 está nos três ciclos litúrgicos como primeira leitura na festa de 1º de janeiro. Hoje é um bem “recuperado” pela Igreja Católica. A revalorização desta bênção foi muito apreciada por todos os que pertencem à família franciscana.

Redescobrindo-a e voltando a utilizá-la estaremos fazendo o que fez Francisco ao recuperar uma fórmula litúrgica quase esquecida, considerando-a apta para consolar pessoas em aflição. Usando-a, Francisco descobriu o profundo significado da fórmula e, no modo de usá-la, mostrou que captou precisamente seu sentido original.

A invocação pessoal mostra uma preocupação quase materna de Francisco por seus amigos. Ela foi usada pela primeira vez quando Francisco abençoou frei Leão que era um sacerdote que passava por grandes dificuldades. Francisco é apenas um não-sacerdote que abençoa o sacerdote. Ao proferir a benção, ele se põe – e talvez de forma muito consciente – na linha dos que, como no Antigo Testamento, mediavam a bênção de Javé e na liturgia da Igreja invocavam, em situações especiais, a bênção de Deus sobre uma pessoa ou sobre o povo. Fazendo isso, o Santo põe em prática uma habilitação dada pelo batismo.

Para finalizar, é bom interiorizarmos que a bênção é uma graça que atinge a vida e seu mistério, e é um dom que envolve gestos e palavras. Enquanto a prece da bênção afirma a generosidade divina, a ação de graças, que se move pela fé, já a viu manifestar-se.

Que Deus te abençoe e te guarde!
Ele te mostre a sua face e se compadeça de ti!
O Senhor volte para ti o seu olhar e te dê a sua paz!

 
 

Antonio Mesquita Galvão

Doutor em Teologia Moral

 
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