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O que é um reconhecimento Canônico? (II)


sergioluiz | 14 junho, 2012

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Nesta segunda parte de nossa reflexão gostaria de vos falar de algo muito importante diante deste processo de aquisição de um, Reconhecimento Canônico por parte de nossa Mãe Igreja.

Como é linda nossa Igreja, ela é Mãe e como mãe é prudente e sábia.
Lembremos como o problema do lugar da vida consagrada e mais especialmente na Igreja foi colocado no Concílio, quando da elaboração da constituição Lumen Gentium. O estado de profissão dos conselhos evangélicos não encontra um lugar especial na estrutura hierárquica da Igreja. Principalmente não pode ser considerado como intermediário entre a hierarquia e o laicato. Aqueles que na Igreja consideravam apenas a estrutura hierárquica seriam incapazes de situar dentro dela este estado, e se inclinariam a não lhe reconhecer mais do que uma posição marginal ou acidental.

Mas é importante admitir na Igreja outra estrutura além daquela da hierarquia: “estrutura pneumática” ou “estrutura carismática”, segundo as expressões empregadas pelos Padres do Concílio, ou, segundo os termos menos técnicos empregados pelo próprio Concílio, estrutura de “vida e santidade”. É nesta estrutura que a vida consagrada ocupa um lugar definitivo: “o estado constituído pela profissão dos conselhos evangélicos, embora não pertença à estrutura hierárquica da Igreja, está, contudo firmemente relacionado com a sua vida e santidade” (LG 44).

Esta afirmação aparece como conclusão de uma longa descrição do estado religioso apresentado como uma consagração mais íntima ao serviço de Deus e da Igreja, e como um sinal dotado de eficácia apostólica. As palavras que terminam a descrição fazem compreender melhor que se trata da estrutura “pneumática” ou “carismatica” da Igreja: o estado de consagrados “mostra a todos os homens a supereminente grandeza da força de Cristo-Rei e o infinito poder do Espírito Santo que opera admiravelmente na Igreja” (LG 44).

O que distingue o Carisma é a manifestação do poder do Espírito Santo e o caráter “maravilhoso”, “admirável” da obra que ele realiza. Poder “infinito”, precisa o texto para destacar mais o que supera o homem em sua ação divina. No estado de consagrados a um Carisma, o Espírito Santo faz aparecer “a elevação do reino de Deus acima de todas as coisas terrestres” (LG 44).

O carisma tem como característica o fato de surgir das profundidades mais íntimas da pessoa, invadidas pelo Espírito Santo, e de manifestar ao mesmo tempo uma força sobrenatural impressionante. Ele mostra ao mesmo tempo com que perfeição a ação divina se amolda a uma personalidade humana e a que grau de poder quer elevá-la. Atesta de maneira impressionante a imanência e a transcendência de Deus no comportamento do homem.

Não há dúvida de que o poder do Espírito Santo opera na hierarquia e que conduz o exercício da autoridade, inspirando aos pastores as decisões a tomar. Mas este poder se manifesta também nos carismas, principalmente nesse impulso de vida espiritual que fez surgir a contemplação eremita e depois as famílias religiosas. O impulso parte do próprio interior do povo cristão; ele soergue as almas e as leva a um nível superior, aquele de uma vida em Deus que antecipa a existência do Eterno.

A vida Consagrada, um carisma

Chamando a nossa atenção para o vínculo existente entre estado de consagrados que ratificam o seu batismo por um vínculo a uma família de Consagrados e a vida e santidade da Igreja, isto é, para a sua estrutura pneumática ou carismática, o Concílio nos ajuda a compreender melhor o sentido profundo deste estado.

Este estado é o desenvolvimento de um carisma. Em tempos passados existiu a tendência de caracterizá-lo pela regra. Juridicamente, o estado consagrado se define pela profissão dos votos de religião e pela submissão às Constituições e regras de um instituto. Disso pode resultar a tendência a colocar a perfeição da vida espiritual, sobretudo na fiel observância da regra. E isso seria um grande risco em perder o espírito para o qual esta graça foi derramada para o seio da Igreja.

É importante considerar o estado consagrado como uma vida e não ver antes de tudo a entrada para um sistema de práticas e observâncias. Esta vida é um jorro suscitado na alma pelo Espírito Santo. Antes de caracterizar o estado Consagrado pela regra, é preciso reconhecer na vida consagrada o carisma.

Com isso nos é aberta uma concepção mais dinâmica. A vida Consagrada é antes de tudo manifestação de um impulso do Espírito Santo. E um jorro espiritual que se desdobra num modo de vida, a entrada para uma grande aventura na qual se quer seguir a Cristo até o fim, segundo o programa das bem-aventuranças.

Para manter-se e se desenvolver, o Carisma comunitário tende a se organizar em formas estáveis, a se institucionalizar. A autoridade hierárquica da Igreja recolhe este impulso aprovando e determinando os quadros e condições de seu desenvolvimento. Efetivamente, é na Igreja que a vida Consagrada toma forma e se torna estado. O Concílio não deixa de lembrar isso, principalmente quando declara, com relação aos conselhos evangélicos: “A própria autoridade da Igreja, guiada pelo Espírito Santo, cuidou de interpretá-los, regulamentar-lhes a prática e de estabelecer também formas estáveis de vidas” (LG 43).

A pouca estima que em certos ambientes se manifesta pela vida Consagrada não será devida, em boa parte, a aparências demasiado jurídicas? O estado consagrado com muita freqüência deu a impressão de um formalismo excessivo, de um aprisionamento na regra. Não nos cabe discutir aqui se não se tratava de uma impressão, mas o fato é que para um bom número de cristãos este modo de vida goza de pouca estima.

Nesta vida, é o Carisma que acima de tudo deveria se revelar. Até mesmo as atitudes exteriores do Consagrado deveriam estar impregnadas de um clima carismático. Elas não poderiam encobrir ou entravar uma espontaneidade que se harmoniza com o impulso sobrenatural do carisma.

A vocação Consagrada se apresenta como uma orientação carismática. Tomando consciência do chamamento de Deus, os batizados procuram o caminho de um carisma que responda às suas aspirações. São as comunidades consagradas onde o carisma se manifesta de maneira mais ativa e contemplativa que exercem maior atração sobre os batizados de hoje. Ali onde se percebe um transbordamento característico de vida espiritual ou de atividade apostólica, com freqüência se observa maior afluência de vocações. Enquanto as prescrições de uma regra jurídica não são de molde a operar uma sedução, o impulso carismático move as profundezas do ser e arrasta na sua esteira os que desejam uma vida inteiramente dedicada.

Aos olhos dos fiéis em geral, os consagrados devem se apresentar como portadores de um Carisma. Não é isto que nos faz perceber melhor algumas declarações dos Padres do Concílio segundo as quais os consagrados são “vanguardas na tendência à perfeição cristã”, e vêm à frente dos que caminham na via da santidade”? Para serem as vanguardas da caminhada do povo de Deus em busca da perfeição, não deverão os consagrados ser animados de um carisma? Somente um impulso interior suscitado pelo Espírito Santo é capaz de colocá-los na dianteira deste esforço de santidade e de tornar sua vida atraente e empolgante para os outros cristãos.

O impulso, a espontaneidade, o desabrochamento, a capacidade de invenção, o dinamismo que distinguem o Carisma exigem a liberdade. Nas comunidades cristãs primitivas, o desenvolvimento carismático era um indício da liberdade mais profunda que Cristo concede a cada pessoa, liberdade bem superior àquela que os judeus em seu culto conheciam. Da mesma forma, na vida Consagrada, o Carisma tende por si mesmo a promover uma liberdade mais profunda.

Sabemos que a vida consagrada é, mais ainda do que a vocação cristã ordinária, um apelo à liberdade. O apelo à fé e à caridade comporta uma obrigação estrita de lhe responder, ao passo que o apelo a uma vida consagrada não inclui esta obrigação. O apelo “segue-me” não é dirigido sob pena de pecado, e o próprio Jesus colocou este matiz no convite ao jovem rico: “Se queres ser perfeito…” (Mt 19, 21). Um amor mais completo a Cristo deve vir de uma liberdade mais consciente de si mesma.

Não há dúvida de que o compromisso assumido pelos compromissos de uma comunidade e os votos comporta uma nova obrigação. Evidentemente, não podemos subestimar o valor da obrigação de observar as Constituições, os Estatutos e as Regras assim como os Conselhos evangélicos da castidade, a pobreza, a obediência, e negar que esta violação possa constituir pecado. Mas esta obrigação deve ir acompanhada de um espírito de livre generosidade que inspirou o compromisso. Portanto, não seria conveniente que ela se traduzisse num grande número de obrigações detalhadas, regulamentando imperiosamente a maior parte dos movimentos dos consagrados.

A Acumulação das regras não estaria na linha do carisma da vida consagrada. Esta acumulação tende a sufocar o impulso da alma, dificultar em vez de estimular. Quanto a isso temos uma indicação muita clara no Evangelho: Cristo chamou os seus discípulos a uma santidade mais alta do que aquela da lei judia, a uma “justiça” superior àquela dos fariseus, especialistas na observância minuciosa da lei. Mas libertou os seus discípulos de um grande número de prescrições da lei. Além disso, justificou esta atitude diante das censuras dos fariseus, observando que o comportamento do homem mostrava seu valor mais nas disposições interiores do que nos gestos exteriores (Mt 15, 18).

Se ele veio “cumprir” a lei foi para levar seu espírito à plenitude não para multiplicar-lhe as exigências da letra. Para assegurar perfeição mais elevada, concedeu maior liberdade, desobrigando os seus discípulos de uma multidão de pequenos mandamentos. Será que esta lição foi sempre compreendida na vida consagrada. Certa espiritualidade das regras tinha a tendência de impor de que quanto mais a liberdade pessoal fosse amarrada, mais seria a oferenda a Deus; esquecia-se que uma perfeição maior de oferenda exigia uma liberdade maior.
Entristeço-me muito ao ver que muitos dos consagrados ainda estão tão fixados nas leis, normas, escalas, regras, ao invés de um espírito livre à opção que nós mesmos fizemos!

São Paulo se havia dado conta do alcance decisivo da ação libertadora de Cristo com relação à lei. Na segunda carta aos Coríntios ele estabelece de maneira muito sugestiva o princípio: “Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (3, 17). Ele fala de uma liberdade que se afirma diante do próprio Deus, que é segurança sem temor em sua presença. Pois ele opõe o Antigo Testamento, que só é entregue aos judeus sob um véu, e a Nova Aliança, onde o véu desapareceu, suprimido por Cristo.

Esta liberdade concedida pelo Espírito do Senhor, deve ser entendida ao mesmo tempo com referência a uma afirmação: “A letra mata, o Espírito vivifica” (3,6). Também o Apóstolo se define como ministro de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito (3,6). A liberdade concedida pelo Espírito Santo é, portanto libertação da letra da lei.

O que caracteriza essencialmente a Nova Aliança deve caracterizar também a vida consagrada. A vida consagrada só pode sublinhar mais fortemente as orientações essenciais da vida cristã. Mais especialmente, a ação do Espírito Santo no carisma da vida Consagrada tende a libertar mais completamente o cristão de uma letra que mata. Visto que o Espírito do Senhor está especialmente presente e em ação junto aos consagrados, quer oferecer-lhe uma liberdade mais ampla, uma liberdade que lhes permita engajar, no amor de Deus toda a profundidade de sua pessoa.

Notemos, enfim, que o decreto Perfectae Caritatis menciona expressamente esta liberdade na descrição da vida consagrada, quando evoca os homens e mulheres “que quiseram, pela prática dos conselhos evangélicos, seguir a Cristo com maior liberdade”. Com isto se insinua que a união mais total com Cristo se efetua através de uma liberdade interior melhor assegurada. O que se visa aqui com esta liberdade, é a libertação com relação aos entraves que tornam mais difícil o dom integral ao Senhor e que são afastados pelos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência. Mas o termo é geral, e seria evidentemente censurável que a maior liberdade procurada e conseguida pelos conselhos evangélicos levasse, pela regra religiosa, a um maior fechamento. “Seguir a Cristo com maior liberdade” deve permanecer um princípio fundamental da vida Consagrada; isso exprime bem o sentido do carisma.

Desabrochamento sobrenatural

É importante evitar todo engano sobre o tipo de desabrochamento que o carisma da vida consagrada postula. Este desabrochamento situa-se em nível sobrenatural, e não se poderia confundir com reivindicações da natureza humana que se oporiam às exigências da graça.

Não há dúvida de que a natureza pode reivindicar certos direitos. Hoje percebemos melhor tudo o que o respeito pela personalidade exige, e a vida consagrada não pode violar este respeito nem privar a pessoa das atribuições que lhe são devidas. Ela deveria ser a primeira a promover este respeito. Uma pessoa naturalmente diminuída ou reprimida não pode formar uma personalidade bem equilibrada e bem desenvolvida na ordem sobrenatural. Toda diminuição ou amputação da natureza e dos direitos naturais torna o ser humano menos susceptível de se elevar no amor de Deus e de seus irmãos. É preciso favorecer o desenvolvimento da pessoa para assegurar a plenitude da consagração ao Senhor.

Mas outras reivindicações não se harmonizam de forma alguma com este desabrochamento carismático, embora possam se apresentar abusivamente como formas deste desabrochamento. São as reivindicações que tenderiam a uma libertação com relação às exigências autênticas dos votos, da vida comunitária ou apostólica. Assim, seria um individualismo se alguém, sob pretexto de liberdade pessoal, se afastasse da comunidade ou faltasse à caridade; seria falta de reserva ou prudência numa liberdade de comportamento se alguém não mantivesse sob vigilância um coração consagrado ao Senhor pela castidade; seria um descompromisso com relação à pobreza a procura do luxo e do conforto; seria uma pretensão querer subtrair-se à autoridade e levar uma existência independente; como também seria individualismo não colaborar com as tarefas apostólicas, correndo atrás dos próprios interesses.

O carisma da vida consagrada se voltaria contra a própria pessoa que exigisse uma liberdade desse tipo. Ele só pode ter como objetivo uma perfeição maior da castidade, da pobreza, da obediência, da caridade comunitária e do zelo apostólico. Se ele exige, segundo a recomendação do Concílio, uma cooperação mais ampla da liberdade pessoal de cada um diante das decisões da autoridade, não é para diminuir a obediência religiosa, mas para torná-la mais profunda e completa, mais capaz de comprometer totalmente o homem.

Portanto, é na própria linha da vida consagrada e dos conselhos evangélicos que deve produzir-se o desabrochamento do consagrado. O carisma é sobrenatural e estimula um desabrochamento que supera a natureza, respeitando-a e integrando-a.

Também não se poderia perder de vista o mistério redentor no qual se produz o florescimento de toda vida cristã. A consagração ao Senhor é engajamento mais completo no sacrifício. Se, de acordo com a doutrina do Concílio, o estado consagrado é chamado a “testemunhar a vida nova e eterna adquirida pela redenção de Cristo” e a “anunciar antecipadamente a ressurreição futura e a glória do reino dos céus” (LG 44), não pode conseguir isso a não ser seguindo o caminho pelo qual Cristo chegou ao seu triunfo glorioso, isto é, o caminho da cruz. É pelo sacrifício que ficará assegurado o pleno desabrochamento espiritual; as dificuldades e as imperfeições que consagrado encontra, seja na comunidade, seja fora dela, assumem um sentido superior na ótica redentora, e devem contribuir para o desenvolvimento do amor.

As regras, As Constituições, Diretório ou Estatuto expressão estável do carisma

Depois de tudo o que dissemos com relação ao desabrochamento carismático e à liberdade, haveria necessidade de suprimir a regra, os Estatutos, o Diretório? Já demos a entender que não é esta a conclusão a tirar.

O próprio carisma implica estabilidade e continuidade, e por este título exige uma Constituição e regra ou diretório. A experiência da vida consagrada confirma suficientemente a necessidade de tal regra. É conhecida a tentativa de São Francisco de Assis de contentar-se com a liberdade carismática, sua repugnância em estabelecer leis e em aceitar uma institucionalização da comunidade que ele fundou, por parte mesmo da Igreja. Esta institucionalização parecia-lhe perigosa para o carisma; ele temia que a letra viesse a matar o que o Espírito havia vivificado. Mas a necessidade de uma organização institucional apareceu de maneira inelutável depois de sua morte; as graves dificuldades da ordem franciscana durante muitos anos tiveram sua origem, ao menos em parte, na distância entre o admirável ideal do fundador e as necessidades da instituição.

Mas é preciso reconhecer que com freqüência se observa mais a tendência a um excesso contrário. Certos institutos mostraram-se inclinados a impor um grande número de regras, muito minuciosas, muito restritivas. Assim é que na hora atual se impõe uma diminuição.

Na revisão das regras, diretórios e constituições convém ter presente principalmente o ponto de vista do carisma. Dado que a vida consagrada é carisma e que o instituto religioso particular é fruto de um carisma particular, a regra deve ser admitida como expressão do carisma. Muitas regras que são simplesmente a expressão de costumes de tempos passados e de usos locais, deverão ser eliminadas. De modo geral, as regras sairão ganhando ao serem redigidas de maneira menos jurídica e menos negativa do que antes. Elas não devem se apresentar como essencialmente motivadas pelo temor do abuso. Deve-se sentir nelas o impulso para o ideal evangélico e para o carisma religioso. Largueza de horizontes e ardor carismático é o que elas devem manifestar. Devem ter o objetivo de propagar a luz da Revelação: em vez de simplesmente formular o que se deve fazer ou evitar, que indiquem o motivo, a inspiração profunda de um comportamento. Que se esforcem por “persuadir” e não tanto por obrigar, por traduzir em suas recomendações o impulso do Espírito de amor que faz apelo à generosidade antes que ao simples espírito de dever e de submissão. Procurarão sua eficácia dentro do estilo das ações do Espírito Santo, mais por sedução íntima do que por imposição externa.

Principalmente as regras que se referem ao regime de oração devem ser elaboradas segundo o carisma do instituto. Em institutos de vida apostólica, a organização da oração deve corresponder ao carisma especificamente apostólico, adaptando-se às necessidades do apostolado. É fácil perceber que as regras referentes à oração podem ter um efeito especialmente libertador, permitindo aos Consagrados que se libertem de atividades que poderiam absorver todo o seu tempo e todas as suas forças. Estas regras os libertam lembrando-lhes a exigência da intimidade com o Senhor apesar da urgência de suas ocupações. É um caso em que a regra tende à libertação profunda que o carisma quer promover.

Expressão do carisma, a regra deve estar em harmonia com a vida. Ela não conseguirá isso a não ser graças a uma flexibilidade e uma amplidão que deixem lugar às adaptações particulares segundo as comunidades e os indivíduos. Eis uma razão a mais para não deixá-la entrar em detalhes e mantê-la num nível mais elevado, num plano de diretivas mais gerais. É importante evitar esta ruptura entre a regra e a vida, ruptura que tem como conseqüência impor a certos consagrados um modo de vida mais de acordo com a época atual.

Carisma e serviço apostólico

Visto que o carisma tende a assegurar uma função social na Igreja, jamais pode ser considerado simplesmente numa perspectiva de santificação individual. Mesmo na vida contemplativa, a intenção apostólica é essencial e deve animar todo o comportamento do religioso (cfr. PC- Perfectae Caritatis 5, 7).

Seria desejável que ela fosse expressa com mais clareza em certas constituições, onde o fim geral do instituto era definido com um duplo objetivo: a maior glória de Deus e a santificação dos membros. No enunciado do fim geral, não se pode abstrair do apostolado e do serviço da Igreja. A menção da santificação dos membros, não explicitamente associada à santificação do próximo dá uma impressão muito individualista.

Sob seu aspecto de oração e intimidade com o Senhor, o estado consagrado também está orientado para o apostolado. É o que lembra o decreto Perfectae Caritatis quando afirma que o fervor na união com Cristo enriquece a vida da Igreja e fecunda o seu apostolado.

Se o carisma se apresenta como uma forma de desabrochamento, é sinal que ele tem um objetivo muito mais amplo que o desabrochamento do indivíduo. O que ele tende a alcançar essencialmente é o desabrochamento da Igreja, de toda a comunidade cristã. Procurando manter-se e renovar-se no fluxo carismático do Espírito Santo, o consagrado jamais perderá de vista o desenvolvimento da santidade cristã no mundo.
Mergulhar no carisma é voltar a uma fonte que deve alimentar toda a Igreja.

A eficácia carismática

Os carismas da Igreja primitiva eram marcados por certas manifestações extraordinárias, onde a eficácia da ação do Espírito Santo se apresentava de maneira luminosa. O acontecimento do Pentecostes revestiu-se de um caráter prodigioso, não somente na transformação operada na primeira comunidade cristã, mas também no jorro desta graça sobre as testemunhas e no grande numero das conversões que respondiam à pregação de Pedro. O impulso da primitiva Igreja atesta o poder maravilhoso dos dons carismáticos.
No século III, o desenvolvimento da vida eremita também apresentou traços maravilhosos. A irradiação de santo Antão, a sedução exercida por uma vida austera que poderia causar forte repulsa à natureza humana, a rápida multiplicação das vocações testemunharam a ação soberana do Espírito Santo.

Na história da vida Consagrada, podem ser citados outros exemplos de um movimento carismático que, suscitando novas formas de consagração ou apostolado, se distingue por um notável poder de irradiação, pela atração exercida sobre grande número de pessoas, por uma poderosa influência sobre o conjunto do povo cristão, por grandes realizações apostólicas.

Todavia, deve-se evitar a identificação pura e simples entre eficácia carismática e resultados visíveis. Se a ação do Espírito Santo produz viradas transformações exteriores, na maioria das vezes ela exerce uma penetração profunda, e opera transformações íntimas que escapam a toda transformação. Deixar-se guiar pelo carisma não é, portanto, procurar efeitos surpreendentes da graça ou apegar-se a notáveis realizações de apostolado. É seguir a inspiração do Espírito Santo, aceitando ignorar seu ponto de chegada como também a medida da graça visível. E acreditar na fecundidade apostólica desta inspiração, quando ela é acolhida sem restrição.

O carisma da vida consagrada reclama essencialmente a fé num resultado apostólico geralmente invisível. Esta fé baseia-se não em esforços humanos, mas no princípio de que a operação divina do Espírito Santo não pode ficar sem efeito. Os consagrados são convidados a crer na importância de seu carisma para o bem da Igreja. Entre os motivos de certas defecções recentes, encontra-se a falta de fé no valor da vida consagrada e no seu futuro. O carisma, que garante este valor, tende a estimular e confirmar a fé.

Questões para serem refletidas:

O carisma tem como característica o fato de surgir das profundidades mais íntimas da pessoa, invadidas pelo Espírito Santo, e de manifestar ao mesmo tempo uma força sobrenatural impressionante. Ele mostra ao mesmo tempo com que perfeição a ação divina se amolda a uma personalidade humana e a que grau de poder quer elevá-la.
Consegue detectar a força do Carisma em sua Comunidade e nos membros que a compõem?

É importante considerar o estado consagrado como uma vida e não ver antes de tudo a entrada para um sistema de práticas e observâncias. Esta vida é um jorro suscitado na alma pelo Espírito Santo. Antes de caracterizar o estado Consagrado pela regra, é preciso reconhecer na vida consagrada o Carisma. Como percebe a força do Carisma que mantém o estado de vida consagrado em sua comunidade? As Regras estão sendo cumpridas pelo Espírito que move a manter o Dom ou percebe que é vivida apenas uma lei pela lei?

Como estamos realizando a graça “pneumática e carismática” do Dom recebido na busca da fidelidade original ?

O carisma da vida consagrada reclama essencialmente a fé num resultado apostólico geralmente invisível.
O que você pensa sobre estamos dando maior importância a Vivência do Dom ou o serviço apostólico?

Mergulhar no carisma, é voltar a uma fonte que deve alimentar toda a Igreja.
Em que isto te questiona?

O que caracteriza essencialmente receber aprovação, o reconhecimento Diocesano para a vida de sua Comunidade? E em que isto implica em sua vida particular na vivência deste Dom?

Como busca manter a Fidelidade ao Dom sem viver um legalismo?

Percebe a importância de manter as Constituições, o Diretório, Regras, no Espírito do Dom recebido, ou simplesmente para cumprir uma norma sem vida?

Poderia comentar onde percebe que estamos longe do Espírito e ficamos apenas em regras?

Pe. Emílio Carlos Mancini
Moderador Geral e Fundador

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